Ressignificando a moda: uma entrevista com Ale Brito

Em entrevista concedida ao CartolaMAG.com, o designer de moda Ale Brito fala um pouco sobre moda sem gênero, movimentos sociais e racismo

Natural de São Paulo, com 15 anos de carreira, o designer de moda Ale Brito faz parte de uma geração que vem reinventando a moda masculina brasileira. Mais do que isso, o paulista vem atingindo públicos diversos através de suas roupas de estética forte e antenadas com a cena mundial de moda sem gênero.

Backstage Ale Brito Primavera/Verão 2016.
Ao entendermos que a moda não se resume a um fenômeno restritamente econômico, mas também político e cultural, é possível pensar mais facilmente sobre as relações de apropriação e imposição desenvolvidas entre este sistema de caráter efêmero e os movimentos sociais, sob quais tem se constituído. A moda não pode ser pensada como uma estrutura coberta por um véu de neutralidade. Suas produções obedecem a interesses específicos influenciados, muitas vezes, por reivindicações sociais – sendo elas atendidas ou não. E é a partir dessa perspectiva que levantamos questões acerca do trabalho do estilista paulista Ale Brito.

CartolaMAG: No seu início de carreira, nota-se que seu foco era o feminino, com fortes inspirações no universo rocker. Com o tempo seu trabalho se tornou mais minimalista, ligado ao esportivo e streetwear e com foco no masculino, a exemplo disso é que a maioria do casting de seus desfiles mais recentes é formado por homens. Contudo, algumas de suas peças mais recentes poderiam ser associadas ao guarda roupa feminino, ou talvez ao que podemos classificar como vestuário genderless. Então, fica a dúvida: trata-se de uma ressignificação da moda masculina ou de uma construção de um “guarda-roupa neutro”? 
Ale Brito: Acho que é mais uma ressignificação da moda como um todo. O meu direcionamento de marca se adéqua aos novos tempos, em que não se pensa mais tanto nessa questão de gênero de uma forma fixa e imutável. Quando eu desenho uma peça, eu penso em uma pessoa jovem, moderna e que não está presa a essas questões. É um guarda-roupa voltado para o novo.

Ale Brito Primavera/Verão 2017. Fotos: Marcelo Soubhia/Fotosite.
CartolaMAG: Sendo o vestuário um produto de sociedades é, consequentemente, influenciado por seus movimentos sociais. Um desses movimentos é o feminismo, que vem questionando os pilares que sustentam os gêneros na nossa sociedade, por exemplo. Como você enxerga as ações de captura que o capitalismo está fazendo com pessoas que vinham questionando essas demarcações da indumentária antes mesmo da moda, supostamente, se posicionar a favor desses questionamentos, passando a desenvolver, por exemplo, coleções sem gênero? Seria uma forma de conseguir novos consumidores? 
Ale Brito: Muito do que se tem falado sobre moda sem gênero não é realmente sem gênero. Muitas marcas têm usado esse termo de uma forma mais mercadológica, tentando alcançar uma nova parcela de consumidores. Mas não é sobre colocar menino com roupa de menina e vice-versa, é muito mais complexo que isso. Tem mais a ver com uma neutralização dos gêneros, fluidez e com ruptura de estereótipos.

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CartolaMAG: Notamos uma representatividade negra em seu trabalho. Gostaríamos de saber sua posição em relação ao racismo presente na indústria da moda, desde a não-contratação de modelos negros e indígenas, até mesmo na desvalorização de profissionais como designers e produtores de moda, e como isso reflete em seu trabalho. 
Ale Brito: Esse é um assunto superimportante. No meu último desfile, eu queria que uma boa parte dos modelos fossem negros, mas, infelizmente, as opções nas agências são muito reduzidas. Para essa realidade mudar, todo mundo precisa fazer a sua parte. Em uma das minhas campanhas mais recentes, fotografei dois meninos negros lindos que não eram modelos. Ou seja, fui atrás de incluir essa imagem na minha marca de uma maneira diferente. Acho que já avançamos muito nessa questão, mas ainda tem muita coisa para melhorar.

Um vídeo publicado por ALE BRITO (@_alebrito_) em

CartolaMAG: Por último, mas ainda pensando em movimentos sociais, gostaríamos de saber sua opinião a respeito das redes sociais  o Instagram especificamente. Como essas têm se tonado espaços de divulgação do trabalho de estilistas como você, desenvolvimento e reconhecimento de estéticas. 
Ale Brito: As redes sociais são a maior fonte de divulgação de novos estilistas. Nelas, o público tem contato direto com o trabalho do designer, sem intermediários. Hoje, minha marca consegue viver quase que exclusivamente de divulgação própria, principalmente no Instagram. Tenho clientes de fora do Brasil graças às redes sociais. É uma maneira também de reforçar a estética do meu trabalho.
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